Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Uma receita de risoto de camarão

Marina passeia os dedos pelo controle, e muda aleatoriamente os canais da televisão. Pela enésima vez estica o olhar até ao telefone, mas este insiste em permanecer mudo. Cruza e descruza as pernas, como se estivesse em plena atividade aeróbica. Solta o coração em cavalgada, mas o galope a leva à exaustão e resolve puxar as rédeas, nas páginas de um livro. Atropela as palavras, contorce as frases, deturpa o sentido e entorpece os sentidos. Bebe um gole de vinho, enquanto se embebeda de ansiedade. O telefone toca. Não sabe se desfalece ou se renasce. Era engano. Engano de quem liga, engano de quem atende. Olha o relógio, mas não vê as horas, só vê o tempo passar, castigando cada segundo.
Desliga tudo. Quer se desligar. Apaga as luzes e vai dormir. Vai fingir que dorme, fingir para si mesma. Puxa o edredom, e empurra a decepção. Fecha os olhos e abre as opções. Entrar num chat para jogar conversa fora, ligar para uma amiga e despejar seus lamentos, ligar para todos e não ligar para nada. Deixa a água correr, esperando estancar sua inquietude, enquanto a banheira quase transborda. Recua, olha o telefone. Prossegue na neblina morna, e mergulha no liquido quente.
Primeiro toque, não acredita. Segundo toque, não quer acreditar. Terceiro toque, tudo o que quer é atender a tempo. Enrola-se na toalha, e mais do que corre, se transporta, deixando no chão as marcas molhadas da febre do desespero.
_ Acabo de chegar do litoral. Estou trazendo uns camarões. Pensei em trocar a companhia da fome pela sua. Topa fazer aquele risoto?
_ Por quê não... Estarei esperando.
Termina o banho, (desta vez no chuveiro), deixa cair sobre o corpo perfumado, a maciez do vestido azul, sacode os cabelos molhados e, mesmo descalça, desce para abrir a porta. Seu sorriso é convidativo, sua expressão, jovial, sua companhia, encantadora. Ele a abraça numa saudade exacerbada, e ela se deixa contagiar enquanto o conforto lhe passeia pela alma. Velhos amigos também trazem sensações novas. Se olham, se interrogam, se inibem, se calam, mas não calam no peito o prazer de estar juntos, e trocam confidências.
Ele limpa os camarões. Ela lava uma xícara de arroz parbolizado, e reserva-o. Ferve uma xícara e meia de leite de coco. Em uma frigideira grande, em fogo moderado, derrete duas colheres (de sopa) de manteiga e uma colher (de sopa) de azeite. Junta uma cebola pequena, finamente picada, e um dente de alho, bem picado. Refoga por um minuto. Acrescenta o arroz, uma pitada de sal, e o frita por dois minutos, sem parar de mexer. Enquanto isso, numa frigideira também, untada com um fio de azeite de oliva, ele doura os camarões, tempera-os com um dente de alho moído, uma pitada de sal, e pimenta do reino. Rega-os com duas colheres (de sopa) de conhaque, e espera que este quase se evapore. Junta uma xícara de buquês de brócolis, e mexe por mais três minutos, finalizando com meia xícara de creme de leite.
No espaço reduzido em frente ao fogão, não se chocam, apenas se resvalam. Inspiram o aroma, e transpiram desejo. Os braços se tocam, o assunto se dispersa, os hormônios se precipitam, e os corações se preservam. Na taça de vinho tinto, em cima da mesa (ele sempre insistia em dividir o mesmo copo), se bebiam anseios contidos.
Marina coloca no arroz o leite de coco, ainda quente, e deixa cozinhar até que a mistura fique cremosa. Por fim, acrescenta a mistura que Antonio preparara, juntamente com meia xícara de provolone cortado em cubinhos, e deixa cozinhar por mais um minuto, apenas para que o queijo derreta levemente.
Entregam-se ao sabor do risoto, esquecem os dissabores dos desencontros, e saboreiam a serenidade do momento, em sobressaltos do que virá depois.
O telefone se manifesta. Ela atende ao quinto toque.
_Esqueci de ligar. Você estava acordada?
Despertada da passividade em que a amizade os envolvera, olha para o homem à sua frente, e se percebe mulher.
_Não! Acabo de acordar!

Sensibilidade e sabores

Sinto-me: Com subita vontade de camarão
Estou com está musica na cabeça: Jorje Palma : Encostate a mim
Publicado por c911 c911eutopias às 18:06
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